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Vá a livraria e procure Simone

Entrei na livraria e fui direto na mesa de infantis. Simone Pessoa, 54, estava lá no fundo da loja e veio em minha direção. Antes que eu falasse qualquer coisa, ela diz: “olha esse aqui, que coisa mais linda!”, apontando para um livro de capa verde, com o título “O Pote Vazio”. “Lê, lê essa história. Você vai adorar”, disse a livreira (comerciante de livros) e ficou do meu lado esperando eu terminar a leitura, que seria rápida – o livro era fininho.

Simone queria ver a minha reação. “Não é lindo?”, repetia com a certeza de que a mensagem final daquela obra – sobre viver com verdade – encantaria a qualquer leitor. De um jeito cativante, Simone – em pessoa e poesia – insere no universo peculiar dos livros quem adentra a livraria Ouvidor, uma das três que resistem na Savassi, região Centro-Sul de Belo Horizonte.

Simone já trabalhou nas outras, mas não gosta quando tem bar no interior da loja, porque “distrai a atenção dos livros”. Se depender dela, você não sai da livraria antes de ao menos saber as histórias de umas cinco obras literárias, que ela conta enquanto te leva a percorrer a loja – não muito grande – de canto a canto.

Baixinha, de saia e meia calça-preta, bota cano curto, e um colete que confere estilo ao uniforme, a livreira sobe nas prateleiras, vai com os dedinhos e saca um livro específico da estante: “Como não ler um livro desse, olha (abre a página), vê os capítulos”. Instantes depois, ela pega outro, “esse é docinho, leve. É uma rodada em Paris”.

Chega bem perto de você e narra o enredo como quem conta, em segredo, um filme que tenha gosta muito. “O final é surpreendente, mas não posso falar porque um dia você vai ler”.

Após três horas na livraria, que passaram voando, levei quatro livros (que me custaram R$ 160), mas estava certa de que investi em boas histórias e ansiosa para começar a ler, e entender o fascínio da ‘Pessoa’ livreira.

Certeira. Vendedora de livros há 18 anos, Simone sabe de detalhes de uma infinidade de obras, tem uma memória impressionante
Adquiriu a habilidade de “ler” o gosto do freguês e indicar a leitura certa. Afinal, ela quer conquistar não apenas um cliente, mas um leitor contumaz, desses que “termina um (livro) e já quer outro”, diz.

Para mim, ela indicou “A Caderneta Vermelha”, de Antoine Laurain. “Esse é francês”, mostra a foto do escritor, “os franceses são feios né?”, opina Simone, lembrando que os autores só ficam bons depois dos 35 anos, “essa é a primeira grande obra boa dele”, e me transporta para a narrativa em Paris: “um cara encontra uma bolsa com uma cadernetinha, um molesquine vermelho, fica encantado com as anotações e quer encontrar ela, não para entregar, mas para conhecê-la, porque cria um profundo afeto. É um nouvelle vague. Impossível não ficar assim... arrebatada, sabe!?”. Por acaso, eu estava com um molesquine vermelho dentro da bolsa.

“O povo diz que eu venderia até avião caindo. Não. Eu vendo livros. Odeio roupas,não vou em salão de beleza, eu mesmo corto meu cabelo”, assegura a livreira. O dono da livraria, Marcelo Coelho Ferreira, comenta que quando Simone gosta de um livro, vende vários, ao ponto da editora ligar na loja para entender o “sucesso”. Mas se o livro é chato, ela não deixa o cliente levar. O patrão nunca conseguiu dar um mês inteiro de férias a ela. “Tira uma semana, duas, mais que isso vira um martírio”.

Viagens. O ambiente dela é ali, no meio dos livros, cada hora lendo um. “Só leio até o fim quando eu gosto muito. Acompanho muito a literatura contemporânea”, esclarece Simone, que prefere a jornada segura das narrativas literárias, porque não gosta de viajar, no sentido físico. “Tenho medo de deslocar, fico muito sensível” – “(Ela) não gosta de sair do lugar comum”, interpela o filho único, Bernardo Pessoa, 27. Ele a busca quase todos os dias de carro no trabalho, tirando-lhe o tempo precioso de leitura no trânsito. O filho também sente falta disso e, muitas vezes, deixa o automóvel de lado.

Bernardo é outro apaixonado por livros, emenda um no outro, “usando o mesmo marcador há cinco anos”, frisa. Assim como a mãe, ele não sabe quantos já leu. Na casa deles devem ter 5.000 mil livros e revistas, segundo Bernardo. Ele viaja, mas só a trabalho ou estudo, “a passeio, não”. Em abril de 2017, ele vai para Pernambuco. Simone tratou logo de comprar um “guia”, não de turismo, mas um literário, para ele conhecer o Estado pelas letras de João Cabral de Melo Neto, em Morte e Vida Severina. “Ele tem que saber a literatura do lugar. Quando volta me conta a viagem e traz livros de lá”.

É assim que Simone conhece o mundo. Sobre Recife, ela introduz: “tem a casa do Gilberto Freire em Apipucos (bairro)”, e logo acha o livro de receitas do autor. Abre na página das fotos das xícaras na cozinha do casarão, revelando mais um prazer, o de ver fotografias. “As pessoas falam que eu conheço mais a cidade do que a pessoa que vai. Eu tenho muita informação, mas não tenho o emocional do lugar”, pondera a livreira.

É como o personagem Novecento, de Alessandro Baricco, “que sem por os pés na terra, conhecia todos os países” – parafraseia Bernardo Pessoa –, através das sensações dos passageiros do navio em que é pianista.

Cachaça. Simone começou três cursos superiores – biblioteconomia, filosofia e comunicação –, mas já tinha lido muitos romances para conseguir largá-los pelos didáticos. “Tem romance que é pura filosofia, que te ensina mais que livro de faculdade”. Ela acredita que começou a ler antes mesmo de aprender a ler. “Nem percebi quando aprendi”. Na universidade, achava tudo “uma bobagem”. No trabalho como bibliotecária, se sentia “um apêndice”. “É monótono, ninguém precisa de você. O comércio é mais ativo”, e se realizou na livraria. Engana-se quem pensa que os livros fizeram dela uma pessoa séria. “Sou Rock’n’roll. Cachaceira”. E tem o desejo subliminar de ter sua própria livraria e morar no andar de cima, como a livreira Sylvia Beach, da Shakespeare and Company, nos anos 20 e 30 em Paris. “Tem quem escreve, quem edita e quem vende os livros”, e traz a foto de Sylvia em frente a livraria parisiense. “Ela hospedava os escritores na sua casa para escrever”, sonha Simone Pessoa.

Fonte: Jornal o Tempo

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